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UMA REFLEXÃO SOBRE O TEMPO NO BUDISMO




TEMPOS DOURADOS, TEMPOS CINZENTOS, TEMPO PERDIDO


Aqueles que se torturam com o calor do verão anseiam pela lua cheia do outono
Sem nem mesmo temer a ideia
De que estão terão se passado, para sempre, mais cem dias da vida.
BUDA

Certa vez, no Nepal, fui convidado para ficar em um lugar impressionante: um hotel de luxo construído na beira de um enorme desfiladeiro. De um lado, a natureza esplêndida, a inacreditável beleza do Himalaia nevado, a imensidão selvagem daquelas montanhas fascinantes, como que esculpidas em um outro mundo; de outro, um luxo frívolo. No meio da noite, a escuridão foi quebrada por uma tempestade de relâmpagos, despertando em mim uma mistura de fascínio pela beleza natural e de repulsa diante da inutilidade e superficialidade do nosso local de estada. Essa repulsa veio de uma reflexão sobre a perda de tempo.
O tempo é comparável a um pó muito fino que, distraídos, deixamos escorregar por entre os nosso dedos sem nem ao menos perceber. Se lhe damos um bom uso, é a ponte por onde fazemos passar a trama dos nossos dias para fabricar o tecido de uma vida significativa. Portanto, tomarmos consciência de que o tempo é o nosso bem mais precioso torna-se essencial para a busca da felicidade. Isso não quer dizer que tenhamos de nos livrar daquilo que é agradável na vida, mas sim que é preciso descartar tudo o que nos leva a desperdiçá-la. Sem causar dano à pessoa, é necessário ter força de espírito para não ceder àquela vozinha que nos sussurra para concordarmos com as incessantes concessões às exigências da vida cotidiana. Por que hesitar em fazer tabula rasa do supérfluo? Que vantagem há em nos dedicarmos ao superficial e ao inútil? Como diz Sêneca: “Não é que tenhamos tão pouco tempo, mas que o desperdiçamos demais.”
A vida é curta. Sempre perdemos, quando deixamos de lado as coisas essenciais, ou as adiamos ao nos deixarmos enredar pelas demandas incoerentes da sociedade. Os anos ou as horas de vida que nos restam para viver são como uma substância preciosa que se desfaz, podendo ser desperdiçada sem que percebamos. Apesar do seu grande valor, o tempo sabe proteger-se a si mesmo, é como uma criança que pode ser levada pela mão por qualquer pessoa que passe.
Para o homem ativo, tempos dourados são aqueles em que ele pode criar, construir, realizar e dedicar-se ao bem dos outros e o seu próprio desenvolvimento. Para o meditador, o tempo lhe permite olhar com clareza para si mesmo, a fim de compreender o seu mundo interior e redescobrir a essência da vida. São os tempos dourados que, apesar da aparente inatividade, permitem que ele desfrute completamente do momento presente e desenvolva as qualidades interiores que lhe tornarão possível ajudar melhor os outros. No dia de um eremita, cada instante é um tesouro, e o seu tempo nunca é desperdiçado. No silêncio do seu retiro ele se torna, nas palavras de Khalil Gibran, “uma flauta em cujo coração o murmúrio das horas se transforma em música”.
A pessoa desocupada fala em “matar o tempo”. Que expressão terrível! O tempo fica parecendo então nada mais do que uma longa linha reta monótona e triste. Estes são os tempos cinzentos, tempos de chumbo que pesam como um fardo sobre aquele que está desocupado, fazendo prostrar qualquer um que não tolere os revezes, a espera, o atraso, o tédio, a solidão, às vezes até a vida em si. Cada momento que passa agrava o seu sentimento de estar aprisionado. Para outros, o tempo nada mais é do que a contagem regressiva para uma morte da qual têm medo, ou que podem até chegar a desejar, quando estão cansados de viver. Parafraseando Herbert Spencer, o tempo que não são capazes de matar acaba por matá-los.
Vivenciar o tempo como uma experiência dolorosa e insípida, sentir que não fizemos nada o dia inteiro, o ano inteiro, e depois a vida inteira, revela como é pequena a consciência que temos do potencial para o desenvolvimento que existe dentro de nós.

ALÉM DO TÉDIO E DA SOLIDÃO

O tédio é a sina daqueles que necessitam de distrações, para quem a vida é uma grande diversão e que murcham no minuto em que o espetáculo termina. O tédio é a aflição daqueles que não sabem o valor do tempo.
Já os que compreendem o inestimável valor do tempo usam cada intervalo das suas atividades diárias e estímulos exteriores para experienciar a deliciosa clareza e serenidade do momento. Para estes não há tédio, a mente não entra nesse estado de aridez e secura.
O mesmo vale para a solidão. Da população americana, 15% dizem vivenciar um sentimento intenso de solidão uma vez por semana. Aquele que se isola dos outros e do universo, capturado pela armadilha em que se transforma a bolha do seu ego, sente-se sozinho no meio de uma multidão. Mas aqueles que compreendem a interdependência que há entre todos os fenômenos não conhecem a solidão. O eremita, por exemplo, sente-se em harmonia com o universo inteiro.
Para o homem distraído, o tempo é apenas uma música de fundo soando, monótona, na confusão de sua mente. Este é o tempo perdido, o tempo desperdiçado. Sobre esse homem, Sêneca diria: “Ele não viveu muito tempo – apenas existiu durante muito tempo. O que você diria a respeito de um homem que é pego por uma tempestade feroz assim que lança o seu barco ao mar e que, fustigado pelo vento furioso que vem de todos os lados, açoitado pelas ondas para lá e para cá, é jogado de volta ao porto, no caminho inverso ao que desejava percorrer – sobre esse homem, você diria que ele navegou muito? Ele não navegou muito, só levou muitos trancos e chacoalhões”.
“Distração”, aqui, não significa o tranquilo relaxamento de uma caminhada a pé pelo campo, mas as atividades inúteis e a interminável tagarelice mental que, longe de iluminar a mente, mergulham-na no caos e no esgotamento. Essa distração faz com que a mente fique vagueando sem nenhum descanso, nenhuma pausa, e direciona-a erroneamente para estradas secundárias e becos sem saída. Saber usar muito bem o tempo não significa ter sempre que estar correndo, ou estar sempre obcecado pelo relógio. Estejamos relaxados ou concentrados, descansando ou em intensa atividade, em todas as circunstâncias devemos ser capazes de reconhecer o verdadeiro valor do tempo.

RETORNO AOS TEMPOS DOURADOS

Como aceitamos o fato de não consagrar nem mesmo alguns breves momentos por dia à introspecção? Estamos endurecidos, insensíveis, blasés, a esse ponto? Ficamos realmente satisfeitos com uma conversinha espirituosa e um pouco de entretenimento banal? Vamos olhar para dentro. Há muito a fazer.
Vale a pena dedicar um momento de cada dia para cultivar o pensamento altruísta e observar o funcionamento da mente. Que não haja dúvida: essa investigação nos ensinará mil vezes mais, e de maneira muito mais duradoura, do que uma hora dedicada a ler as notícias locais ou os resultados esportivos! Não se trata de ignorar o mundo, mas de fazer bom uso do nosso tempo. De qualquer maneira, não precisamos ter medo de cair no extremo, vivendo como vivemos, nesta era de distrações onipresentes, em que o acesso à informação geral nos leva bem perto do ponto de saturação. Trata-se, sim, de que estamos estagnados no extremo oposto: o grau zero de contemplação. Podemos dedicar a ela alguns segundos, quando algum revés emocional ou profissional nos força a “pôr as coisas em perspectiva”. Mas como e por quanto tempo? Com muita frequência, só ficamos esperando que “passe o mau momento”, buscando ansiosamente alguma distração para “mudar as ideias” ou “refrescar a mente”. Mudam os atores e o cenário, mas a peça continua a mesma.
Por que não sentar-se à margem de um lago, no topo de uma montanha, ou em uma sala tranquila, para examinar de quê somos feitos, no mais profundo de nós mesmos? Primeiro, examinar o que mais nos importa na vida, e depois, estabelecer prioridades entre as coisas essenciais e as outras atividades que forçadamente impomos ao nosso tempo. Podemos também nos beneficiar de certas fases da vida ativa para nos reencontrarmos e voltar o nosso olhar para dentro. Tenzin Palmo, uma monja que passou muitos anos em retiro, escreveu: “As pessoas dizem que não têm tempo para a meditação. Não é verdade! Você pode meditar quando anda pelo corredor, quando espera que o sinal abra para você no trânsito, trabalhando no computador, quando está em uma fila, no banheiro, penteando o cabelo. É preciso criar o hábito de estar no presente, sem os comentários mentais”.
O nosso tempo é contado desde o dia que nascemos, cada segundo, cada passo nos traz mais próximos da morte. O eremita tibetano Patrul Rimpoche lembra-nos poeticamente que
À medida que a sua vida passa como o mergulho do sol poente,
A morte se aproxima, como as sombras da noite se alongam.
Longe de fazer com que fiquemos desesperados, uma percepção lúcida da natureza das coisas, ao contrário, nos inspira a viver plenamente cada dia que passa. A não ser que examinemos a nossa vida, daremos por certo que não temos escolha e que é mais fácil fazer uma coisa depois da outra, como sempre fizemos e sempre faremos. Mas se não abandonarmos os entretenimentos fúteis e as atividades estéreis do mundo, certamente elas não nos abandonarão, vindo a tomar cada vez mais espaço em nossa vida.
Se adiarmos a nossa vida espiritual para amanhã, a nossa negligência se repetirá dia após dia. O tempo voa! A morte se aproxima a cada passo que dou, a cada olhar que tenho para o mundo, a cada tique-taque do relógio. Ela pode nos alcançar a qualquer instante, e não há nada que possamos fazer a esse respeito. Se a morte é certa, no momento de sua chegada é imprevisível. Como disse Nagarjuna, dezessete séculos atrás:
Se a vida é assolada por muitos males
E é ainda mais frágil do que uma bolha na água,
É um milagre, depois de ter dormido,
Inspirar, expirar, e acordar disposto! 
No nível prático, se quisermos vivenciar nossa relação com o tempo de maneira mais harmoniosa, devemos cultivar certo número de qualidades. A atenção plena permite que permaneçamos alertas à passagem do tempo, e evita que ele se vá sem percebamos. A motivação adequada é que dá ao tempo as suas cores e o seu valor. A diligência nos permite fazer bom uso dele. A liberdade interior evita que ele seja monopolizado pelas emoções perturbadoras. Cada dia, cada hora, cada segundo é como uma flecha que voa para o seu alvo. O tempo certo para começar é agora.

EXERCÍCIO: Apreciar o valor do tempo, saborear o momento presente

Volte a sua mente para dentro e aprecie a riqueza de cada momento que passa. Em vez de ser uma sucessão sem fim de sentimentos, imagens e pensamentos dispersos, o tempo se torna pura atenção e presença, como um fluxo luminoso de outro derretido.
No instante em que cessam os pensamentos passados e os pensamentos futuros ainda não surgiram – nesse intervalo não há uma percepção do agora, de um frescor prístino, claro, desperto, desnudo, simples? Permaneça um pouco nela, sem agarrar-se a nada, como uma criança pequena que observa uma paisagem imensa.

SER UM COMO O FLUXO DO TEMPO

Uma vida boa é aquela que se caracteriza por uma absorção completa naquilo que fazemos.
JEANNE NAKAMURA E MIHALY CSIKSZENTMIHALYI

Todos já sentimos a experiência de nos vermos intensamente absorvidos por um ato, uma vivência ou uma sensação. É isso que Mihaly Csikszentmuhalyi, um dos mais importantes psicólogos da Claremont Graduate University, denomina “fluxo”. Na década de 1960, quando estudava o processo criativo, Csikszentmuhalyi ficou impressionado com o fato de que, quando a criação de uma pintura esta indo bem, o artista ficava totalmente absorvido em seu trabalho e continuava a fazê-lo até terminar, esquecendo o cansaço, a fome e o desconforto. Quando terminava a criação, o seu interesse diminuía abruptamente. Ele vivenciou uma experiência de fluxo, durante a qual o fato de estarmos imersos no que fazemos, enquanto fazemos, conta mais do que o resultado final.
Intrigado por esse fenômeno, Csikszentmuhalyi entrevistou um grande número de artistas, alpinistas, jogadores de xadrez, cirurgiões, escritores e artesãos, pessoas que tinham no puro prazer do ato, do seu fazer, a motivação principal. É claro que para um alpinista que escalou dezenas de vezes a mesma montanha, o prazer de chegar ao topo é menos importante do que o de subir até lá. O mesmo vale para aquele que veleja por uma baía, sem nenhum destino preciso, que toca um instrumento musical, ou se entrega a jogar paciência. Nesses momentos, ficamos “completamente envolvidos na própria atividade. O sentimento do eu se desintegra. Não vemos o tempo passar. Cada ação, movimento e pensamento que provém inevitavelmente do precedente e dá origem ao que vem depois, como acontece ao tocarmos jazz. Todo o ser está envolvido, e utilizarmos ao máximo as nossas capacidades”. 1 Diane Roffe-Steinrotter, medalha de ouro nas Olimpíadas de Inverno de 1994, afirma que não se lembra de nada do que aconteceu quando fez o percurso da prova de downhill, a não ser que sentiu-se totalmente relaxada: “Tive a impressão de ser uma queda d’água.” 
A entrada no estado de fluxo depende intimamente da quantidade de atenção dedicada à experiência vivida. William James escreveu: “Minha experiência é aquilo e que eu aceito prestar atenção”. Se quisermos entrar nesse estado, a tarefa deve monopolizar toda a nossa atenção e apresentar um desafio à altura das nossas habilidades. Se for difícil demais, ficarmos tensos e ansiosos; se fácil demais, relaxaremos e logo nos sentiremos entediados. Na experiência do fluxo, estabelece-se uma ressonância entre a ação, o ambiente externo e a mente. Na maior parte dos casos, essa fluidez é sentida como uma experiência ótima e que traz satisfação, por vezes até êxtase. É o oposto não só do tédio e da depressão, como também da agitação e das distrações. É interessante notar que, enquanto dura esse estado, a consciência do eu não existe. Tudo o que permanece na pessoa é o estado desperto, e ela se torna uma com a sua ação, deixando de observar a si mesma.
Para dar um exemplo pessoal, muitas vezes senti isso ao servir de intérprete para os mestres tibetanos. O intérprete precisa concentrar toda a sua tenção no discurso, que pode durar de cinco a dez minutos, e depois traduzi-lo oralmente, seguindo nessa sequência sempre, sem interrupção, até o fim da sessão de ensinamentos – que às vezes se estende por várias horas. Percebi que a melhor maneira de realizar essa tarefa é mergulhar em um estado mental muito similar ao que Csikszentmuhalyi chama de fluxo. Enquanto o mestre fala, deixo a minha mente em um estado de completa disponibilidade, tão livre do pensamento quanto uma folha de papel em branco, atenta mas sem tensão. Depois, procuro transmitir com minhas próprias palavras o que entendi, como ao verter o conteúdo de um jarro que acabou de ser preenchido para outro. Para isso, basta lembrar o ponto de partida e o encadeamento do ensinamento, deixando que os detalhes venham surgindo sem esforço. A mente fica ao mesmo tempo focalizada e relaxada. Dessa maneira, é possível reconstruir muito fielmente um ensinamento longo e complexo. Se acontece de o fluxo do ensinamento ser quebrado por pensamento ou um evento exterior, a mágica se perde e fica difícil retomar o fio da meada. Quando isso ocorre, não são só alguns detalhes que me escapam, mas a mente fica em branco, e por alguns instantes não consigo me recordar de nada. Percebi que é mais fácil não anotar nada precisamente para sustentar a experiência do fluxo, que permite a tradução mais fiel possível. Quando tudo vai bem, essa fluidez produz um sentimento de alegria serena; a consciência do eu – ou seja, observar-se a si mesmo – fica praticamente ausente; o cansaço desaparece e não se nota ao passar do tempo, como o fluir de um rio cujo movimento é impossível de distinguir de longe.
Segundo Csikszentmuhalyi, podemos igualmente vivenciar o fluxo no desempenho das tarefas mais comuns, como passar roupa ou trabalhar em uma linha de produção. Tudo depende de como vivemos a experiência da passagem do tempo. Já fora do fluxo, quase todas as atividades são tediosas, quando não suportáveis. Csikszentmuhalyi observou que algumas pessoas entrar com maior facilidade no estado de fluxo do que outras. Essas pessoas, em geral, “são curiosas e se interessem pelas coisas da vida, são persistentes e dotadas de nível de egocentrismo muito baixo. Essas disposições lhe permitem ser motivadas por recompensas ou gratificações interiores”. 
Levar em consideração o estado de fluxo permitiu, em muitos casos, a obtenção de melhorias nas condições de trabalho em diversas fábricas (entre elas a Volvo, fabricante sueca de automóveis); a criação de novos layouts de galerias e objetos de museus (como o Getty Museum em Los Angeles), de tal modo que os visitantes, naturalmente atraídos por cada uma das seções, passam por elas sem se cansar; e também grandes avanços nas instituições educacionais – por exemplo, a Key School, em Indianapolis. 5 Nessa escola, as crianças são estimuladas a ficar absorvidas por quanto tempo quiserem e no seu próprio ritmo por qualquer coisa que lhes desperte o interesse, o que as estimula a estudar em um estado de fluxo. Elas se interessam mais pelos estudos e aprendem com prazer.

EXERCÍCIO: Prática do “caminhar atento”

Estas instruções são do mestre budista vietnamita Trich Nhat Hahn:
Andar somente pelo prazer de andar, livre e firmemente, sem nos apressarmos. Estamos presentes em cada passo que damos. Quando queremos, paramos de andar e damos toda a atenção à pessoa que está à nossa frente, às nossas palavras e à nossa escuta. [...] Pare, olhe em volta e veja como a vida é maravilhosa: as árvores, as nuvens brancas, e céu infinito. Ouça os passarinhos, delicie-se com a brisa suave. Caminhemos como pessoas livre, sentindo os nossos passos ficarem cada vez mais leves como o nosso andar. Apreciemos cada passo que damos”. 

DAR AO FLUXO TODO O SEU VALOR

A experiência do fluxo nos estimula a persistir em uma dada atividade, fazendo com que tenhamos vontade de retomá-la. Assim, é possível que ele se torne um hábito ou até mesmo uma dependência, já que o fluxo não envolve somente atividades construtivas e positivas. O apostador que caiu no vício do jogo fica tão absorvido pela roleta ou máquinas caça-níqueis que chega a ponto de não sentir mais o tempo passar, esquecendo-se completamente de si mesmo e perdendo talvez toda a sua fortuna. O mesmo vale para o caçador que persegue a sua presa ou o assaltante que executa com cuidado o seu plano.
Por mais satisfação que possa trazer o cultivo da experiência do fluxo, ela é somente uminstrumento. Para que possa gerar, a longo prazo, uma qualidade de vida melhor, deve estar imbuída de qualidades humanas, como altruísmo e sabedoria. O valor do fluxo depende da motivação que colore a mente: pode ser negativa, no caso do assaltante; neutra, para uma atividade cotidiana como passar roupa, por exemplo; ou positiva, quando participamos de uma operação de salvamento ou meditamos sobre a compaixão.
Jeanne Nakamura e Csikszentmuhalyi escrevem que “a maior contribuição [do fluxo] para a qualidade de vida consiste em dar um valor à experiência do momento presente”. 7 Em consequência, ela se revela muito preciosa quando se trata de apreciar cada instante da existência e de usá-la de maneira mais construtiva possível. Podemos assim evitar perder o nosso tempo em uma sombria indiferença.
Podemos também praticar formas de fluxo cada vez mais significativas e interiorizadas. Sem a necessidade de atividades exteriores, podemos aprender a repousar, sem qualquer esforço, em um estado de presença mental constante. Contemplar a natureza da mente, por exemplo, é uma experiência profunda e fértil que combina relaxamento e fluxo. Relaxamento sob a forma de calma interior, atenta mas sem tensão. A perfeita lucidez é uma das características principais que distingue esse estado mental do estado habitual de fluxo. Essa lucidez não exige que o sujeito observe a si mesmo, pois aqui também há um desaparecimento quase total da noção de um “eu”. Esse desaparecimento não impede o conhecimento direto da natureza da mente, a “presença pura”. Uma experiência como essa é fonte de paz interior e abertura para o mundo e para os outros. Finalmente, a experiência do fluxo contemplativo abraça a nossa percepção inteira do universo e da interdependência que há ente todos os elementos que o compõem. Podemos dizer que o ser desperto permanece continuamente em estado de fluxo sereno, vívido e altruísta.

EXERCÍCIO: Entrar no fluxo da “presença aberta”

Sente-se confortavelmente em posição de meditação, com os olhos abertos suavemente, a postura ereta, e busque a calma interior. Tente então tornar a sua mente tão vasta quanto o céu. Não focalize a atenção em nada em particular. Permaneça relaxado, calmo, e ao mesmo tempo completamente atento. Deixe a mente ficar livre de construtos mentais, no entanto clara, vívida e abrangente. Sem nenhum esforço e, ainda assim, sem distração. Sem tentar bloquear as percepções sensoriais, as memórias ou a imaginação, sinta que elas não têm nenhuma influência sobre você. Permaneça tranquilo. As percepções não podem alterar a serena vastidão básica da sua mente. Sempre que surgirem pensamentos, permita que eles se desfaçam assim que se formam, como um desenho feito na superfície da água, que não deixa nenhum vestígio. Vivencie por alguns momentos a paz que sente, após o exercício.
Trecho do livro ”Felicidade – A pratica do Bem Estar”

Fonte:http://www.budavirtual.com.br/uma-reflexao-sobre-o-tempo/

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