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O ZAZEN E A SABEDORIA DA CORUJA


O zazen e a sabedoria da coruja






As pessoas haviam ido para o zazen de iniciantes. Sentavam-se caladas e imóveis, de face para uma parede clara, ouvindo os sons internos e externos, transcendendo o comum e o sagrado, indo além do pensar e do não-pensar, procurando alcançar a sabedoria completa – aquele saber-conhecer-perceber profundo que nos coloca face a face com a Verdade.

Contato direto com a realidade real. Indo além de conceitos e de preconceitos. Antes do pensar se iniciar, antes da dualidade se criar. Antes do dividir e escolher. Antes do separar e julgar. Antes... Quando tudo apenas é. E nesse ser, percebe-se o interser. Inter-relacionamentos perfeitos e sincrônicos na grande sinfonia do universo. Nós tão pequenos humanos. Tão sonhadores de uma grandeza à qual não alcançamos.

Lembrei-me, então, do planeta Marte, vermelho e brilhante, que deixou nosso céu mais vasto e nos fez pensar em marcianos. Na minha infância, os marcianos eram verdes e a vida em Marte, uma fascinação. Discos voadores, objetos voadores não-identificados... Até pensei ter visto algo assim de relance, na curva do prédio. Mas era apenas a ponta do dirigível sobrevoando a cidade. Dirigíveis são lindos.

Será que somos dirigíveis? Quero dizer, será que podemos dirigir a nós mesmos? Ter acesso à central de controle de nossas vidas? Guiar a nós mesmos? Ou será que somos dirigidos por alguém mais? Será que somos controlados por radares espaciais? Será que as propagandas, revistas, televisões, modas e padrões determinam nossas opções? Essas e outras questões podem surgir nos momentos em que estamos sentados, quietos, imóveis, sedentos do encontro com o mais sagrado, como naquele momento, ali na sala de zazen, onde a pequena coruja nos espreitava.

Conseguimos penetrar a origem da mente, a origem do ser, a origem da vida, aquilo que não nasce nem morre, que apenas se revolve, transmuta e reforma incessantemente.
A coruja marrom-acinzentada, de olhos grandes e bico pequeno, estava empoleirada no canto do altar. De repente, voou baixo, perto das cabeças das pessoas entregues em zazen e, desorientada, bateu a cabeça no vidro da porta. Baratinada, voou para o outro lado. Bateu na parede e se sentou com os olhos semicerrados – será que meditava procurando o sagrado?

Meditar é um verbo que, às vezes, requer um objeto – meditar sobre a vida, sobre as obras do Senhor, sobre suas ações. Mas ele também pode ser um verbo intransitivo, que se encerra, que dispensa complementos – meditar no sentido de refletir, sem objeto, sem objetivo, sem nada. A qual meditação se entregava a ave perdida na sala encontrada?

Nós, humanos, nos regozijamos ao ver a ave, pois a coruja simboliza a grande sabedoria. Sabedoria essa que ali na sala poderia estar. Teria ela, a sabedoria, vindo nos visitar? Olhos enormes que enxergam no escuro. Que tesouro poder tudo ver, compreender. Adeus aos rancores e tantos temores. Sabedoria brilhante, irradiante!

Os meditadores se levantaram e foram embora alegres com o bom presságio. Fiquei encantada e preocupada em como lidar com a coruja na sala. Escurecemos o ambiente, deixando a luz de fora acesa para que ela encontrasse o caminho da volta. Volta para onde? De onde viera a coruja tão pequena e tão bela? Teria fugido de alguma morada? Teria um ninho, uma árvore, uma casa? Seria sem-teto? E o céu, não é nada? Depois de alguns instantes, ela voou. Tão lindo vê-la de asas abertas. Obrigada, amiga, por sua visita.

“Qual o objetivo do zen?” – me pergunta alguém. Encontrar o sagrado secreto.
O que é o zazen
Literalmente, significa “sentar zen”. Zen é uma palavra que vem do sânscrito dhyana ou jhana e significa um estado meditativo profundo. Segundo o zen-budismo, a Verdade transcende a expressão da linguagem, e só pode ser alcançada por meio da prática do zazen. Para elevar a mente, os zen-budistas ficam em meditação silenciosa, sentados na posição “agura”, com o pé esquerdo apoiado sobre a coxa direita. A mão direita fica sobre o pé esquerdo, com a palma para cima. Por cima dela, é estendida a mão direita.


Texto • Monja Coen 



Monja Coen é missionária oficial da tradição Soto Shu – Zen Budismo com sede no Japão e é a primaz fundadora da Comunidade Zen Budista do Brasil, criada em 2001, com sede em São Paulo.

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Quem SomosNós somos um grupo de meditação budista e estudo dos textos do mestre Zen Vietnamita Thich Nhat Hanh.  Nos reunimos semanalmente nas 3a feiras das 19:30hs às 21:00hs, na Rua Jornalista Orlando Dantas, n. 5 no Flamengo - Rio de Janeiro. Clique aqui para ver o mapa. Todos estão convidados a participar conosco da nossa prática de plena consciência segundo os métodos ensinados por Thich Nhat Hanh e detalhada no quadro ao lado. Mesmo os que nunca meditaram ou têm pouca experiência estão convidados. Aos iniciantes serão dadas instruções antes do início da prática. Por isso sugerimos que os iniciantes cheguem 15 minutos antes do início. Semanalmente estudamos um texto de Thich Nhat Hanh. Para conhecer o texto dessa semana…