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A NOVA CARA DO BUDISMO


A nova cara do budismo

Monges da corrente tibetana tentam simplificar

as tradições e adaptar a prática para os tempos atuais.



Tibetanos exilados na índia protestam 
contra dominação chinesa


Roupas especiais, regras rígidas de conduta, rituais complicados. Para alguns monges do budismo atual, em especial da corrente tibetana, tudo isso é desnecessário. Esses novos mestres acreditam que os rituais em excesso acabam afastando as pessoas daquilo que é essencial nos ensinamentos de Buda e que a prática deve ajudar a viver melhor aqui e agora, no mundo moderno. No intuito de simplificar o budismo e adaptá-lo para os novos tempos, eles usam as redes sociais para falar com seus seguidores e não se furtam a falar de temas materiais, como dinheiro, carreira etc. Nesta reportagem, contamos a história de três deles: Kalu Rinpoche, nascido na Índia, Trinley Thaye Dorje, tibetano, e Padma Samten, brasileiro. Todos eles tentam deixar o budismo mais prático e próximo da nossa rotina. "Estamos em um outro tempo. As pessoas precisam de um tipo de abordagem que diga respeito à vida delas. E a vida tem hoje uma série de possibilidades interessantes que podem ser exploradas", afirma lama Samten sobre ainternet. A renovação, em si, não é novidade na história do budismo: uma das razões por que a religião se espalhou por toda a Ásia foi justamente o fato de permitir a mescla com as crenças de cada lugar, permitindo assim que aprática assumisse uma "cor local". Jovens lamas e monges que querem renovara prática seguem, portanto, a tradição da religião de se adaptar aos tempos e representam a nova cara do budismo. Tudo para continuar ajudando as pessoas a aliviar o sofrimento e a conseguir, quem sabe, um pouco mais de paz de espírito em um mundo tão rápido e competitivo, sem a preocupação exagerada com títulos, rótulos e rituais.

Kalu, o jovem líder das redes sociais

Nome - Kalu Rinpoche
Idade - 22 anos
Onde vive - Entre Índia e França
Conhecido por - Ter abandonado o monastério para conhecer o mundo, aos 18 anos; falar dos bastidores do budismo; conversar com seus seguidores na internet

Fã de hip hop e de dançar break e conectado às redes sociais, Kalu Rinpoche parece um jovem comum. Um detalhe o diferencia, porém, da maioria das pessoas de sua idade. Nascido em um monastério, na Índia, foi reconhecido como a reencarnação de Kalu Rinpoche (1905-1989), um dos principais nomes da expansão do budismo tibetano para os países ocidentais, e entregue pelo pai, aos 2 anos, para ser criado dentro das tradições budistas. Ele seria responsável por dar continuidade a sua linhagem, Shangpa Kagyu, mundo afora, e tinha de ser preparado para isso. O novo Kalu viveu "como um príncipe", como ele diz, até os 9 anos, quando perdeu o pai e foi transferido de monastério.

A partir dali, sua vida ficou difícil. Em um vídeo na internet, com cerca de 70 mil visualizações, ele diz que sofreu abuso sexual de monges mais velhos no início da adolescência e que, após sair do retiro em que esteve dos 15 aos 17 anos, se viciou em drogas e álcool.

As falas online chocaram os seguidores e interessados no budismo e foram também uma transgressão de uma das regras dos praticantes mais tradicionais: não falar sobre os bastidores. Em 2011, quando fez sua terceira volta ao mundo como detentor da linhagem (na primeira, ele tinha 4 anos), Kalu afirmou querer tornar o budismo mais acessível, criticando, com bom humor, a estrutura budista e o próprio mestre, que, segundo ele, tentou matá-lo com uma faca, por não estar agindo como o esperado.

Após um período em que se afastou das obrigações religiosas, Kalu retornou àprática budista. Dessa vez, seguro de que queria transmitir às pessoas o que ele acredita ser a essência dos ensinamentos de Buda: práticas para entender e superar o sofrimento, sem se importar com títulos, rótulos e rituais.

No Facebook, Kalu tem cerca de 10 mil curtidores. Com frequência, ele conta um pouco sobre o que está fazendo, deixa uma mensagem de saudação ou responde a algo publicamente. É comum que converse de maneira informal, não utilize as vestimentas tradicionais budistas e reitere sua descrença na quantidade de sacrifícios impostos na prática tradicional tibetana, o que ele considera desnecessário para alcançar a felicidade. Tenta desmistificar arepresentação de líderes budistas sempre sorridentes e felizes, dizendo que ele mesmo é uma pessoa comum, sujeita a sofrer como qualquer outra.

Para Kalu, não é preciso fazer longas viagens ou retiros para encontrar a paz - embora o budismo ensine a respeitar, se essa for a escolha. "Muitos religiosos fogem da realidade, explicam além da realidade. O que não existe, e é agrande confusão. O que vier de sua experiência, essa é a verdadeira prática", disse ao visitar a França, em 2011.

Na internet, encontra-se todo tipo de opinião sobre o jovem lama: declarações de amor e ódio, apoiadores e críticos de sua postura e até quem questione sua história: onde foi parar o mestre que tentou matá-lo? (Segundo Kalu, abandonou o monastério.) Qual a posição de Tai Situpa, o nome mais importante da linhagem de Kalu, sobre o que ele disse? As questões políticas e internas do budismo, no entanto, importam pouco para seus seguidores, que reconhecem nele a possibilidade de alcançar o equilíbrio dentro da própria rotina, sem deixar de ser quem são.

Pedro Duarte é jornalista e mora em Salvador. Encontrou no budismo uma filosofia de vida.


Trinley Dorje e seu budismo prático

Nome - Trinley Thaye Dorje
Idade - 29 anos
Onde vive - Kalimpong, na Índia
Conhecido por - Ser o 17º Karmapa, mestre que reencarna para disseminar obudismo; atrair seguidores de sua faixa etária; gostar de desenhar e cozinhar

Trinley Thaye Dorje tem apenas 29 anos e está mais para galã de Bollywood que para Keisuke Miyagi, o mestre do filme Karatê Kid. Muitos budistas acreditam que ele seja o 17º Karmapa, um mestre que reencarna para disseminar os ensinamentos de Buda. Aqui no plano terreno, Trinley Dorje encabeça a Karma Kagyu, uma das quatro principais escolas do budismotibetano (as outras três são Gelug, Nyingma e Sakya), com 800 monastérios ao redor do mundo. Entre seus discípulos estão o rei do Butão e alguns dos homens mais ricos da Índia.

Dorje fugiu do Tibete em 1994, aos 11 anos. Viveu em Nova Délhi e Kalimpong, onde recebeu treinamento religioso. "Não tenho lembranças muito claras de como saímos do país. Foi logo depois que fui reconhecido como Karmapa. Meu pai era um mestre budista na nossa comunidade e foi obrigado a abandonar seus afazeres para garantir que eu fosse levado para a Índia em segredo", conta ele.

Embora não fale a respeito, Dorje não é o único a se declarar o 17º Karmapa. Ogyen Trinley Dorje, tibetano de 27 anos também radicado na Índia, briga pelo posto de líder da Karma Kagyu, gerando um racha na religião. Até agora, Trinley Thaye levou a melhor.

O jovem monge tem chamado atenção por atrair seguidores de sua faixa etária, pessoas que estavam afastadas do budismo por causa de um estilo de vida que talvez seja contraditório com a prática. "A maior dificuldade é falar em um longo e lento processo de aperfeiçoamento espiritual para um público que se acostumou ao imediato", diz Dorje. Segundo ele, sua estratégia é mostrar como o budismo pode ajudar na vida prática das pessoas: "Quem tem uma mente clara e calma se sai melhor em um mundo onde todos se deixam levar por impulsos. A prática do budismo nos ajuda a lidar com nossas experiências ruins com afastamento e honestidade. É isso que nos faz aprender com traumas modernos como separações e demissões. Vejo as pessoas sofrendo por aí gratuitamente, sem tirar lições de seus fracassos", explica.
Fã de Enya, de críquete e do filme Lawrence da Arábia, Dorje gosta de desenhar e cozinhar e costuma dar pequenos quadros feitos por ele mesmo para seus discípulos mais próximos. "Qualquer passatempo que o ajude a se manter concentrado em uma mesma atividade e o afaste do consumo é importante", diz o monge.

Quando questionado sobre por que o budismo tem ganhado adeptos no Ocidente, Dorje responde que é por causa do "espírito secular" da doutrina: "Aforça do budismo não reside na adoração a um Deus, mas na transformação da mente. Todos temos dentro de nós o potencial para atingir a iluminação, mas precisamos nos esforçar", diz. Para ele, seguir os ensinamentos de Buda não é mais difícil hoje do que foi no passado. "Dizem que o budismo é incompatível com um mundo competitivo, onde todos estão lutando por um lugar, mas ele também era `incompatível¿ no passado, por outros motivos. Cada momento histórico traz seus obstáculos para a iluminação, cabe a nós saber circundá-los", conclui. O mantra de Trinley Thaye Dorje é "encaixe ameditação na sua vida e em algum momento sua vida se encaixará na meditação". Parece fazer sentido em um país como a Índia, onde cada um busca sua paz no meio do caos.

Juliana Cunha está passando dois meses na Índia, onde foi voluntária da ONG Anhad.


Lama Samten: ensinamentos na TV

Nome - Padma Samten
Idade - 64 anos
Onde vive - Viamão (RS), Brasil
Conhecido por - Gravar ensinamentos em vídeos e podcasts; falar da relação entre ciência e meditação; palestrar para diferentes meios, de empresários ainfratores

Ao contrário de muita gente de sua idade, o gaúcho Alfredo Aveline tem bastante afinidade com computadores. Muito ativo nas redes sociais e outras ferramentas da web, tem 9500 curtidores em sua página no Facebook e mais de 2 mil seguidores no Twitter.

Seu caminho no budismo começou na adolescência, quando teve contato coma crença por meio da ioga. Já formado e professor de física (disciplina que lecionou por 25 anos), aprofundou o contato com as tradições tibetanas através das ligações entre budismo e ciência. Em 1986, fundou o primeiro Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB). Recebeu o título de lama em 1996, de Chagdud Rinpoche, um mestre exilado no Brasil. Tornou-se, então, Padma Samten.

De lá para cá, a quantidade de CEBBs cresceu consideravelmente: 31 centros espalhados por 12 estados do Brasil, além do Distrito Federal, e outros dois no exterior, no Uruguai e no Canadá. A página oficial do CEBB no Facebook ultrapassa os 8 mil "curtir". "Eu chego a diferentes cidades e as pessoas me olham como se me conhecessem e dizem que me ouvem muito (na internet), justamente por terem acesso a essas mídias. E isso ajuda enormemente", afirmou o lama, via Skype, à vida simples.

Além das redes sociais, Samten também está na TV com o programa Sagrado,do canal a cabo Futura. Seus ensinamentos podem ainda ser ouvidos por meio de podcasts em seu site e pelos quase 300 vídeos em seu canal no YouTube. Sempre com bom humor, ele trata das questões de gênero, dos relacionamentos amorosos, do mundo corporativo, de economia.

Em seu dia a dia, é possível vê-lo com frequência sem a tchuba (as vestes de lama) e usando a bicicleta para se locomover, principalmente quando se vê sem tempo de praticar outros exercícios físicos, que adora. É fã de Raul Seixas e de cinema do circuito não comercial, citando um ou outro filme em suas palestras. Militante de causas ambientais, defendia, já na década de 1970, o uso da energia solar. E ainda hoje, volta e meia, retoma em suas conferências temas de sua formação acadêmica, a ciência.

Ele acredita que tanto as pessoas religiosas quanto as associadas à ciência têm tendência de se fechar em suas visões e isso dificulta o diálogo. Para evitar esse choque, frequente no mundo atual, é necessário, segundo ele, quea visão humana se amplie e que se acredite que é possível aprender com diferentes pontos de vista. "Na visão budista, a noção de lucidez vem justamente quando conseguimos perceber as verdades externas (ciência) como inseparáveis dos conteúdos internos (mente). Essa é a razão pela qual ameditação é muito útil em qualquer área, não só no campo religioso", diz.

Foi essa vontade de levar o pensamento da linhagem tibetana Nyingma para outras áreas da sociedade que fez surgir o interesse pelas redes sociais - e também por uma atividade intensa fora das paredes do centro budista. Como lama, Samten visitou, durante alguns anos, semanalmente, detentos em presídios e internos da Fundação Casa (antiga Febem). Atualmente dedica-sea conferências com empresários. A ideia é contatar as pessoas onde elas estão, como faz, por exemplo, o Dalai Lama, ao viajar pelo mundo. Lama Samten tenta seguir seu exemplo e estar disponível para o público em geral.

Marcelo Rafael fez um documentário sobre os diversos tipos de budismo  presentes no Brasil.



Por Jeanne Callegari

Fonte:http://vidasimples.abril.com.br/temas/nova-cara-budismo-749182.shtml

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