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A HISTÓRIA E AS RAÍZES DO ZEN BUDISMO

  1. CH’AN (ou ZEN) NA CHINA
  2. O ZEN CHEGA AO JAPÃO
  3. O ZEN CONTEMPORANEO NO OCIDENTE
Mais ou menos no ano 520, Bodhidharma cruzou o Oceano Índico, indo para a China. Sua chegada às terras do imperador Amarelo marcou o início do Ch’an e ele tomou-se o primeiro patriarca Chinês.
Embora diversas escolas do Budismo tenham sido criadas na China, muito antes de Bodhidharma chegar, sua reputação de renomado mestre de Dhyana antecedeu-o; por isso, o imperador Chinês Wu-ti (502-540), que era um budista devoto, convidou Bodhidharma para visitar o Palácio Imperial, a fim de transmitir seus ensinamentos. O Imperador tinha patrocinado a construção de muitos mosteiros e templos budistas e sustentado diversos mestres de várias seitas budistas. Segundo sua maneira de entender os ensinamentos, achava que, em conseqüência de tudo o que fazia, deveria ‘merecer’ um feliz e próspero reino, e ter o privilegio de reencarnar no lugar que os budistas chamam de "Nação Pura", onde, ao contrário da terra, todas as condições de vida conduziriam à realização da iluminação.
O imperador estava encantado por ter a oportunidade de encontrar um mestre profundamente iluminado e ansioso para conhecer suas realizações espirituais. Conta-se que, ao encontrar Bodhidharma o imperador perguntou:
"Tenho construído muitos templos, copiado inúmeros Sutras e ordenado muitos monges, desde que me tomei imperador. Portanto, pergunto-lhe: qual é o meu mérito?"
"Nenhum!", respondeu Bodhidharma.
O Imperador insistiu: "Por que não tenho mérito?"
Bodhidharma replicou: "Fazer as coisas para obter mérito tem um motivo impuro e só revelará o fruto mesquinho do renascimento."
O imperador, um tanto aborrecido, então, perguntou "Qual é o principio mais importante do Budismo?"
Ao que Bodhidharma respondeu: "Um grande vazio. Nada sagrado."
O imperador agora confuso e bastante indignado inquiriu: "Quem é este que está diante de mim?"
Bodhidharma falou: "Eu não sei."
Vendo que o Imperador não entendeu, Bodhidharma cruzou o rio para Shaolin, onde ficou em meditação durante nove anos, voltado para a parede de uma gruta.
Wu-ti, mais tarde, conversou com um de seus ministros Budistas sobre o encontro que tivera com Bodhidharma. O ministro perguntou: ‘Vossa Majestade imperial sabe quem é esta pessoa?’ O Imperador disse que não sabia. O ministro falou: ‘Ele é o Bodhisattva da compaixão portador do selo do coração de Buda.’ Cheio de arrependimento o Imperador quis chamar Bodhidharma de volta à corte, mas o ministro advertiu: ‘Ainda que você o mandasse buscar, ele não viria. Nem mesmo se todo o mundo, na China, fosse pedir-lhe.’ Ao mesmo tempo, Bodhidharma atraia um círculo de seguidores e, com o passar dos anos, confirmou’ Eka (o chinês Hui K’o) como seu próprio sucessor do Dharma.
Os mestres de Dhyana rapidamente descobriram que os chineses tinham um sistema contemplativo próprio nos ensinamentos de Lao-tsu’ e de Ch’ung-tsU (o qual se chama coletivamente de Taoísmo). A maneira simples de viver em harmonia com a vida, associada ao Taoísmo, está resumida no principio ‘Wu-wei’, que significa ‘não-fazer’ ou ‘não-esforço’ (no sentido de seguir as ilusões da mente). O texto clássico do Taoísmo, o Tao Te Ching, começa assim:
O Tao que pode ser contado não é o Tao eterno.
O nome que pode ser especificado não é o nome eterno.
O que não tem nome é o eternamente real.
Dar nomes é a origem de todas as coisas pessoais.
Livre do desejo, você compreende o mistério.
Apanhado em desejo, só vê as manifestações.
Embora mistério e manifestações surjam da mesma fonte.
Esta fonte chama-se escuridão.
Escuridão dentro da escuridão.
A porta de todo o entendimento.
As similaridades com o Dhyana Budista eram marcantes e, mais tarde, Ch‘an é impregnado pela influência do Taoísmo que, assim, deu a Ch’an seu sabor distinto. Veja, por exemplo, o Hsin Hsin Ming, escrito pelo Terceiro Patriarca, Sengstan (em japonês, Sosan) que assim começa:O Grande caminho não é difícil
Para aqueles que não têm preferências.
Quando amor e ódio estão ausentes
Tudo se toma claro e indistinto.
Faça a menor distinção, entretanto,
E o céu e a terra serão infinitamente postos de lado.

Depois do Quarto Patriarca, Tao-hsin, os mestres do Ch’an começaram a construir e fundar mosteiros para treinamento e, quando chegou a época do Quinto, Hung-jen (601-704), já havia mil monges estudando na mesma área.

O SEXTO PATRIARCAUm dos discípulos do mosteiro de Hung-jen era um camponês analfabeto que, depois, tomou-se o Sexto Patriarca. Seu nome era Hui-neng e, ao lado de Bodhidharma e Shakyamuni, é talvez o mestre mais renomado na história do Zen.
No relato biográfico de sua vida, o Sutra da Declaração de Prinelpios do Sexto Patriarca, conta como chegou até Hung-jen, de-pois de ter ficado todo iluminado ao escutar, por acaso, um monge ler oSutra do Diamante. Hung-jen, percebendo a sua Iluminação, colocou-o para trabalhar na cozinha, pois não queria criar uma situação embaraçosa para os monges mais velhos. Passaram-se oito meses até que Hung-jen chamou todos os monges para uma reunião e anunciou que, se algum deles pudesse compor uma poesia, explicando a essência do Zen, lhe seria dada a ‘transmissão’, e receberia o manto e a tigela do Sexto Patriarca. O favorito para o título era o monge-chefe, Shen-hsin. Ele escreveu o verso a seguir, sem assinar, na parede do mosteiro, altas horas da noite.
Nosso corpo é a árvore-Bodi
Nossa mente, um espelho brilhante.
Cuidadosamente nós os limpamos minuto a minuto
E não deixamos nenhuma poeira ali pousar.
Os outros monges ficaram maravilhados e decidiram que não poderia haver nada melhor. Entretanto, Hui-neng, passando pelo corredor, perguntou pelo verso que seria lido para ele (ele não sabia do teste de Hung-jen), e ditou seu próprio poema:
A árvore Bodi não existe
Nem sequer um espelho brilhante.
Já que tudo é vazio
Onde pode a poeira pousar?
Todos ficaram surpresos, e o mestre, reconhecendo que este era o trabalho de alguém que verdadeiramente entendeu a essência da mente, apagou-o, temendo que pudesse expor Hui-neng à indignação dos monges com ciúmes, por lealdade a Shen-hsui. Hui-neng tinha sido convocado para ver o mestre naquela mesma noite. Ele tinha recebido o manto e a tigela (que se dizia terem pertencido a Bodhidharma), e tinha sido avisado para seguir para o sul. Durante quinze anos, Hui-neng ficou no anonimato até decidir que já era a hora certa de revelar que ele era o Sexto Patriarca. A escola do Zen por ele fundada passou a ser conhecida comq Escola do Sudeste, e a de Shen-hsui — que aos poucos iria desaparecer —, como Escola do Nordeste.
Tal era a genialidade de Hui-neng que, com grande capacidade, transmitiu o Dharma para 43 sucessores! Daí em diante, apareceram muitas linhas diferentes de transmissão do Zen, sendo que essa foi a semente para o desenvolvimento das duas principais seitas Zen no Japão: a Soto e a Rinzai.
A Dinastia T’ang (620-906) foi a Idade de Ouro do Zen na China. Ela produziu grandes mestres, como Joshu (778-897) e Nansen (748-834), e as estórias e casos desses mestres foram reunidas em coleções como a Mumokan, Hekiganroku, Shoyoroku e Tetteki Tosui, e estudadas pelos discípulos do Zen até os dias de hoje. Um dos maiores professores e que gozou de maior influência, nessa época, foi Lin-Chi.

TRANSMISSÕES NA CHINA2
29. Bodhidharma30. Hui-k'o31. Seng-ts'an32. Tao-hsin33. Hung-jen34. Hui-neng
35. Ch'ing-yüan36. Shih-t'ou37. Yao-shan38. Yün-yen39. Tung-shan40. Tao-ying
41. Tao-p'i42. Kuan-chih43. Yüan-kuan44. Ta-yang45. T'ou-tzu46. Tao-k'ai
47. Tan-hsia48. Wu-k'ung49. Tsung-chüeh50. Hsüe-tou51. Ju-ching52. Dôgen


  1. Extraído de "Elementos do Zen" de David Scott e Tony Doubleday
  2. Extraído de "Denkôroku" de Keizan Zenji
O ZEN CHEGA AO JAPÃO
Antes de serem transmitidas para o Japão, as duas maiores escolas dominantes do Ch’an, na China, eram a que traçou sua linhagem a partir do Sexto Patriarca até Lin-chi e a que traçou sua linhagem revendo Ts’ao-shan Pen-chi (em japonês: Sozan Honjaku, 840-901) e Tung-shan Lian-chieh (em japonês: Tozan Ryokai, 807-869), então conhecida como Escola de Ts’ao-tung, na China. No Japão, essas duas escolas ficaram conhecidas como Rinzai e Soto, respectivamente. A Rinzaí foi introduzida primeiramente, no Japão, por Eisai (1141-1215), e a Soto, por Eihei Dogen Kigen, de quem já falamos.
Em 1184, Eisai construiu o primeiro templo do Zen no Japão. Chama-se Shofuku-ji e até hoje ainda existe. Mais tarde, mudou-se para a capital Imperial, Kyoto, onde a Escola Rinzai tornou-se firmemente estabelecida.
Entre os séculos XII e XIV, o Rinzai Zen passou a ser muito popular na classe dos Samurais que dominava o Japão. Os Samurais valorizaram a imediata praticabilidade do treinamento, que era adaptado para satisfazer as necessidades urgentes daqueles anos de turbulência. A coragem e a determinação dos guerreiros fizeram deles discípulos particularmente fortes. Abriram-se templos do Rinzai, em Kamakura, a capital militar, e o sistema nativo do ‘Guerreiro Zen’, com seu koan próprio, começou a se expandir. Nesse meio tempo, o Soto Zen desenvolveu-se independentemente da agitação política da capital.
Dogen nasceu em 1200. Seu pai morreu quando ele tinha dois anos, e sua mãe faleceu cinco anos depois. Com a idade de treze anos foi viver com um tio, um devoto do Budismo. A perda de seus pais e o incentivo de seu tio confirmaram a decisão do Dogen de tornar-se monge. Alguns anos mais tarde, foi para o mosteiro de Kenninjo, fundado por Eisai, e estudou com o sucessor do Dharma de Eisai, Myozen. Durante o tempo que ficou em Kenninjo, o Dogen completou seu treinamento na tradição Rinzai e recebeu o ‘Inka’, o selo de mestre. Apesar disso, não tinha resolvido satisfatoriamente seu dilema básico quanto ao significado da vida. Suas dúvidas levaram-no a empreender uma via3cm arriscada, para a China, em 1223. Uma vez lá, estudou com o Mestre Ju-ching (1163-1228) no mosteiro de T’ien-T’ung. Tudo leva a crer que o treinamento foi duro e, no início, não teve uma vida fácil por lá. Seu Dai-Kensho ocorreu da seguinte maneira:
Seguindo o exemplo do seu mestre, o Dogen se dedicou à prática do zazen noite e dia. De manhã cedo, enquanto dava seu giro costumeiro para fazer uma inspeção, no início do período do zazen formal, Ju-ching encontrou um dos monges cochilando. Repreendendo o monge, disse: ‘A prática do zazen é o deixar cair o corpo e a mente. O que você espera conseguir cochilando?’ Ao ouvir estas palavras, Dogen compreendeu a Iluminação, o olho de sua mente abriu-se completamente. Dirigindo-se para a sala de Ju-ching, a fim de ter sua Iluminação confirmada como genuína, o Dogen queimou um incenso e prostrou-se perante seu mestre.
‘O que você quer dizer com isto?’ perguntou Ju-ching.
‘Eu experimentei o deixar cair o corpo e a mente’, respondeu Dogen.
Ju-ching, vendo que a Iluminação do Dogen era genuína, disse por fim: ‘Você realmente deixou cair o corpo e a mente!’
Dogen, entretanto, insistiu em dizer: ‘Eu apenas acabei de compreender a Iluminação, não me aprove com tanta facilidade.’
‘Eu não estou o aprovando facilmente.’
Dogen, ainda insatisfeito, persistiu: ‘Em que você se baseia para dizer que não me aprovou facilmente?’
Ju-ching respondeu: ‘Corpo e mente caíram!’
Ouvindo isto, Dogen prostrou-se perante o mestre em profundo respeito e gratidão, mostrando que realmente havia transcendido sua mente discriminatória.

Extraído de Dogen Zen, por Yuho Yokoi.

Dogen voltou para o Japão em 1227, levando cópias de certos textos importantes do Soto Zen, muito embora tenha dito que regressou de ‘mãos vazias’. A essência fundamental do Zen, que ele agora ensinava, era que a prática ou atividade do dia-a-dia é a expressão da própria Iluminação. Por este motivo, começou a dar grande ênfase aos detalhes da atividade cotidiana, e encarou cada momento como uma oportunidade de expressar a gratidão pela natureza de Buda. Ganhou a reputação de se submeter a uma disciplina severa e de fazer críticas abertas às outras seitas budistas, inclusive ao Rinzai.
Em 1236, Dogen fundou seu próprio templo, e sua fama de mestre começou a se espalhar. Hoje ele é reverenciado como um
dos maiores gênios religiosos do Japão. Dogen não tinha nada cm comum com as lutas do poder aristocrático e militar do seu tempo e isto, combinado com sua insistência em afirmar que mulheres e homens eram igualmente capazes de realizar o Caminho de Buda, fez do Soto uma tradição realmente sem classes.
Os ensinamentos do Dogen teve um incomensurável impacto sobre o Zen japonês e nenhum discípulo bem intencionado poderá desprezar sua obra.
Não estaremos exagerando se dissermos que, após a introdução do Soto e do Rinzai no Japão, como escolas separadas, elas se desenvolveram e floresceram independentes uma da outra por quase 700 anos. Se o vigor dessas escolas foi firmemente mantido, através dos séculos, é um assunto que envolve certa controvérsia. O Zenji Hakuin, por exemplo, é considerado por toda a parte, no Japão, como o reformador do Rinzai Zen, no século XVII, que estava naquela época se tornando bastante ‘insípido’. Similarmente, os métodos de ensino de mestre Bankei separou os sistemas tradicionais completamente.
Durante todos estes anos, uma escola tem criticado a outra, e cada uma pode estar certa dentro de sua própria perspectiva. Os praticantes do Rinzai criticam seus congêneres do Soto por subestimarem a realização do Satori, e os últimos criticam os primeiros por não considerarem que a prática diária do Caminho não é nada mais do que realizar a Iluminação.
É preciso que alguém tenha a capacidade do próprio Dogen para obter a aprovação de mestre em uma tradição, e ainda reconhecer que existe algo a ser aprendido com a outra. Entretanto, foi precisamente isto que o Roshi Daiun Sogaku Harada (1872-1963) fez. O Roshi Yasutani, seu sucessor do Dharma, disse a respeito dele: ‘Embora ele próprio fosse da seita Soto, não conseguita encontrar um mestre verdadeiramente realizado naquela seita e, portanto, submeteu-se ao treinamento no Shogen-ji e, depois, no Nansen-ji, dois mosteiros Rinzai. Em Nansen-ji. finalmente, apoderou-se do segredo mais profundo do Zen, sob a orientação do Roshi Dokutan, um eminente mestre.’ Em conseqüência, os sucessores do Dharma do Roshi Harada usaram ambos os métodos de ensino, Soto e Rinzai, e argumentaram que assim procediam de uma maneira inovadora, tradicional e flexível.
Menciona-se tal fato devido à profunda influência que o Roshi Yasutani e outros dessa linhagem tiveram sobre o desenvolvimento do Zen no Ocidente.




  1. Extraído de "Elementos do Zen" de David Scott e Tony Doubleday
O ZEN CONTEMPORANEO NO OCIDENTE
Embora muitas vezes o associem às artes marciais, medicina alternativa, cozinha macrobiótica, manutenção de motocicleta etc., muitos ocidentais, pelo menos, já ouviram falar no Zen hoje em dia. Ele tem sido popularizado em filmes, música, artes e ficção, e não existem boas livrarias ou bibliotecas que não tenham, pelo menos, uma publicação sobre o assunto.
O trabalho pioneiro de D.T. Suzuki, Alan Watts e Christmas Humphries, juntamente com o intercâmbio cultural deste século, também tomou muito fácil, para diversas gerações de mestres Zen orientais, trazer o Dharma para o Ocidente.
Talvez por causa do relacionamento desenvolvido entre as forças americanas de ocupação e os nacionalistas japoneses, os primeiros mestres Zen do Japão que viajaram para o exterior foram inicialmente para a América do Norte. No início, reuniões informais conduzidas por Nyogen Senzaki e outros, despertaram um interesse nos retiros (sesshin) formais do Zen, sob a orientação, por exemplo, dos Roshis Shunryu Suzuki, Hakuin Yasutani e Soen Nakagawa. No início da década de setenta, centros de treinamento formal foram fundados na América para o Soto e o Rinzai Zen, bem como para o Ch’an chinês e o ‘Son’ coreano.
Como os monges japoneses Eisai e Dogen, que foram para a China e retomaram para o Japão com o Dharma, alguns ocidentais, interessados no Zen, foram para o Oriente, de lá regressando para fundar seus próprios centros de treinamento como satélites de mosteiros do Japão ou independentes. Entre estes estão o Roshi Jiyu Kennet, o Venerável Myoko-ni e o Roshi Philip Kapleau. Juntos, os discípulos americanos e europeus e os mestres japoneses no Ocidente, que concluíram seu próprio treinamento formal, representam uma geração de mestres Zen nativos, alguns dos quais agora têm seus próprios sucessores do Dharma.
Apesar de ainda estarmos nos primeiros anos de seu desenvolvimento, ficou claro que o Zen, no Ocidente, vai ser diferente de seus congêneres orientais. Isto se reflete nas expectativas dos próprios discípulos, seus mestres e no Dharma em si. Deste modo, assim como tem tido um notável crescimento, o Zen no Ocidente tem também experimentado muitos mal-entendidos e dificuldades: duras lições estão sendo aprendidas tanto pelos discípulos como pelos mestres.
Tem havido considerável experimentação com os métodos de ensino tradicionais, e um dos resultados é que os mestres ficaram mais dispostos a falar e explicar o Zen do que no passado. Mas há também diferenças de estilo marcantes com relação às várias linhagens que estão surgindo no Ocidente. Vejamos o Soto Zen, por exemplo; a escola franco-européia, fundada pelo Roshi Taisen Dshimaru (19141982), é muito diferente, na sua abordagem para treinamento, da britânica do Roshi Jiyu Kennet e da Ordem norte-americana dos budistas contemplativos.
Tudo isto é de esperar enquanto os mestres adaptam o treinamento para atender às necessidades dos discípulos. Uma impressão que se tem do Ch’an desenvolvido é de que se tornou reconhecidamente diferente dos sistemas do Budismo Mahayana de Dhyana, no qual teve origem. De maneira semelhante, o Soto e o Rinzai japoneses, conforme existem hoje, são muito diferentes das suas origens do século XII. Já que o Zen trata da valorização da vida, em vez da devoção a dogmas e credos específicos, suas formas européias e norte-americanas, com certeza, evoluirão com as conhecidas características da cultura ocidental.
É muito cedo para dizer que forma essas características finalmente vão tomar; porém, neste estágio, certas preocupações e temas parecem bastante comuns em várias escolas ocidentais do Zen. Resumidamente são:
1. Apesar de o Dogen insistir que homens e mulheres são igualmente capazes de realizar o Caminho, há uma diferença marcante entre o moderno Ocidente e o antigo Oriente quanto ao lugar e o status da mulher no treinamento Zen. A tendência no Ocidente tem sido não fazer distinção de sexo. Centros de treinamento, mosteiros, sesshin, acesso aos mestres, todos estão abertos para qualquer pessoa. Talvez, em conseqüência disso, haja muito mais mulheres procurando o treinamento Zen no Ocidente do que no Oriente.
2. A necessidade de, e a distinção entre treinamento leigo e monástico tem sido matéria para muita meditação e experimentação no Ocidente. Alguns mestres são muito severos nas suas exigências para com os discípulos que querem se tomar monges, ao passo que outros encaram como natural, para qualquer um que pratique a meditação regularmente, tomar-se monge, se assim o desejar. A distinção é também obscura porque não existe uma tradição muito difundida, no Ocidente, para os leigos manterem as comunidades monásticas. Isto significa que quase todos os monges Zen ocidentais têm de trabalhar, pelo menos por algum tempo, em tarefas comuns, para se manterem. Em conseqüência disso, nos centros Zen que ficam na cidade, mais do que nos mosteiros da zona rural, esta tem sido a regra. Onde centros de retiros monásticos foram fundados, a tendência é abrigar apenas pequenas comunidades residenciais, e a maior parte das pessoas ficar somente algumas semanas ou meses de cada vez.
3. Até que ponto o Zen ocidental deverá adotar as formas orientais nas quais o Zen está ‘condensado’ é um assunto que tem sido tratado amplamente, de diferentes maneiras. Algumas linhagens ocidentais têm feito um grande esforço para remover da prática todos os vestígios das origens orientais. Assim, todos os termos de referência, os Sutras e os cânticos têm sido traduzidos nos equivalentes próximos europeus, e têm sido adotadas formas de apresentação das tradições religiosas européias. Outras têm sido mais conservadoras, entretanto, limitando-se, por exemplo, a traduzir para o vernáculo somente certos cantos.
Os motivos para fazer ou deixar de fazer quaisquer modificações no tratamento oriental do Zen serão testados com o passar do tempo; alguns surgirão como bem sucedidos, outros serão desprezados como inadequados. Por enquanto, a escolha dos estilos de ensino e tradições disponíveis para o iniciante é muito grande, senão um pouco confusa. Talvez o melhor e mais imparcial conselho que possa ser dado é aquele certa vez oferecido pelo Zenji Dogen:
Mesmo as pessoas que estão no mundo profano devem se concentrar em uma coisa e aprendê-la o máximo possível, para poder realizá-la perante os outros, em vez de aprender muitas coisas, ao mesmo tempo, sem realizar verdadeiramente nenhuma delas. Isto é tanto mais válido para o Dharma de Buda, que transcende o mundo profano e nunca foi aprendido ou praticado a partir do começo sem começo. Nós ainda não estamos familiarizados com ele. Além disso, nossa capacidade é pobre. Se tentarmos aprender muitas coisas a respeito deste majestoso e ilimitado Dharma de Buda, não realizaremos nada. Mesmo que nos dediquemos a apenas uma coisa, devido a nossa natureza e capacidade inferiores, teremos dificuldade de esclarecer o Dharma de Buda completamente em uma vida. Discípulos, concentrem-se em uma coisa só..


  1. Extraído de "Elementos do Zen" de David Scott e Tony Doubleday

RAÍZES DO ZEN1



 

Buda nasceu em Kipilavastu,
Iluminado em Magadha;
Ensinou em Varanasi;
Entrou no Nirvana em Kusinagara.
Cântico Soto Zen para a hora da refeição

O Zen japonês, com sua ênfase sobre a prática do zazen, estudo do Koan e a realização do satori, tem suas origens na China. Aqui, os primeiros mestres Zen ensinaram e os primeiros mosteiros reconhecidamente Zen foram fundados. Entretanto, as raízes mais profundas do Zen encontram-se na Índia, onde o Sidarta Gautama nasceu, alcançou a Iluminação e fundou a religião budista. A história da sua vida desperta um interesse mais do que histórico, já que, para os seguidores do Zen, ele é o modelo supremo de alguém que seguiu o Caminho até o fim e realizou a Iluminação perfeita. Buda (palavra sânscrita que significa O Desperto) não é uma figura abstrata do passado, mas um homem com o qual um mestre Zen pode sentir um relacionamento pessoal na consciência de suas lutas compartilhadas. O seguidor do Zen acredita que cada um de nós tem o potencial para alcançar o despertar total e que o caminho de Buda não está reservado para uns poucos escolhidos, mas definitivamente aberto para todos.
Buda nasceu no sexto século a.C., a noroeste da Índia. Quando nasceu, seu pai, Suddhodana, consultou um astrólogo, o qual previu que o jovem Sidharta cresceria para ser um herói e conquistaria o mundo, ou seria um grande sábio. Suddhodana, evidentemente, preferiu a primeira opção e tomou providências para que seu filho fosse criado com todas as virtudes dos reis e guerreiros da época, protegendo-o, tanto quanto possível, de qualquer coisa que pudesse levá-lo a questionar o significado da vida.
De início, os objetivos de Suddhodana foram bem sucedidos, e Sidharta tomou-se um jovem forte e feliz. Casou-se e sua mulher deu à luz um menino. Entretanto, embora não percebesse claramente por que, começou a sentir-se inquieto, achando que a sua vida não lhe trazia nenhuma satisfação. Decidiu fugir secretamente do palácio e aventurar-se entre os súditos de seu pai. Pela primeira vez na vida, deparou-se com as realidades: doença, velhice e morte e, como resultado dessa experiência, tomou-se cada vez mais angustiado, compreendendo que, por maior que fosse a proteção, o conforto e o luxo que o pai proporcionava, não podiam impedir que ele, nem ninguém, lutasse pela vida.
Refletindo sobre o problema e em busca de uma resposta, decidiu tornar-se mendigo errante. Naquela época, este era o caminho para os que queriam entender a morte e o sofrimento da humanidade. Assim, Sidharta renunciou à riqueza, ao poder e à família, partindo em busca da verdade. Ele tinha quase trinta anos, estava na plenitude da vida e era muito determinado. Estava abandonando tudo por um futuro totalmente incerto. Como era praxe, não possuía nada, dormia ao relento e obtinha comida esmolando.
Procurou vários mestres, aprendendo tudo que eles sabiam, mas continuava sem solucionar suas dúvidas a respeito do significado da vida. Na sua determinação para equacionar este problema, sujeitou-se a todas as formas de rigorosa austeridade, ganhando a reputação de asceta. Um pequeno círculo de seguidores reuniu-se em tomo dele. Juntos, jejuavam, expunham-se aos rigores do calor e do frio, e submetiam-se a mortificações físicas. Depois de cinco anos desta vida, Sidharta estava quase morto de fome e exaustão, e ainda não tinha conseguido solucionar sua dúvida.
Finalmente, concluiu que o significado da vida não tinha de ser descoberto por meio de um ascetismo extremo e, assim, abandonou esta prática. Não devemos desprezar o significado desta sua atitude. Com efeito, ele chegou à conclusão de que os cinco ou seis anos em que sujeitou-se, voluntariamente, à mais incrível dureza (e reconquistou algum status pessoal, em conseqüência disso) foram uma completa perda de tempo. Da mesma forma como quando decidiu abandonar o palácio de Suddhodana, deve ter sido necessário uma tremenda coragem e autoconfiança para chegar a este reconhecimento. E isto também comprova a força de sua dúvida pessoal a respeito do significado da vida, bem como sua fé e determinação para solucioná-la.
Pela primeira vez, em muitos anos, comeu uma refeição decente. O resto do grupo, que o tinha como mestre, partiu revoltado. Profundamente frustrado por seu próprio fracasso, Sidharta, de repente, lembrou-se de uma época de sua infância em que, sentado debaixo de uma árvore, no jardim do palácio, espontaneamente experimentara um estado de perfeita harmonia e paz com a vida. Com determinação renovada, sentou-se debaixo de uma árvore próxima e resolveu que sé se levantaria quando sua dúvida a respeito da vida estivesse totalmente satisfeita.
O dia cedeu lugar à noite, e a noite trouxe a aurora. Então, de acordo com a versão existente no Zen, a estrela da manhã despontou no horizonte e, vendo-a, Sidharta, subitamente, compreendeu que nunca havia faltado respostas para suas dúvidas. Vida e morte eram apenas fenômenos passageiros, no palco do Não Nascido, o qual não era outro senão ele próprio. ‘Isto é um milagre!’ exclamou. ‘Todos os seres vivos são intrinsecamente iluminados, quanto ao significado da vida e da morte, são perfeitamente dotados de sabedoria e da compaixão dos Despertos, mas, dados seus pensamentos ilusórios, não podem percebê-lo.’ Compreendendo esta verdade, sua dúvida foi resolvida e Sidharta Gautama tornou-se Buda Shakyamuni.
A verdade descoberta era tão simples e sutil, que ele teve dúvidas de que alguém fosse capaz de entender. Entretanto, ao meditar, deu-se conta de que deveria haver, pelo menos, algumas pessoas prontas para sensibilizarem-se com seus ensinamentos e, assim, iniciou uma vida dedicada ao ensino que deveria se prolongar por quase quarenta anos, e cujas repercussões são sentidas até os nossos dias.
Existem tantas formulações do ensinamento de Buda (o ‘Dharma’) quantas são as escolas do Budismo. A escola do Zen afirma transmitir a verdadeira essência do Dharma, sem apoiar-se nas palavras e letras da doutrina. Isto não quer dizer que o Zen ignore o Budismo canônico, mas muito pelo contrário, como Vimalakirti, os mestres Zen consideram mais importante manifestar a essência do Budismo do que meramente falar sobre ele. Foi assim que Hui-neng (638-713), o Sexto Patriarca do Zen Chinês, embora analfabeto e, portanto, incapaz de estudar os Sutras, pôde explicá-los na integra para quem se dedicasse a ler as passagens para ele. Certa vez, Hui-neng disse: ‘Não deixe o Sutra derrubá-lo; em vez disso, derrube-o você.’
Os ensinamentos de Buda eram pragmáticos, diretos e adaptados às necessidades de seus ouvintes. Ele nunca perdeu de vista os abismos profundos da confusão, nos quais a maior parte da humanidade está mergulhada, e estava pronto para usar todos os modos de ensinamentos proveitosos para ajudar seus seguidores em seus equívocos e dificuldades. Assim, quando foi abordado por uma mulher que trazia o filho morto nos braços, buscando consolo e como compreender por que essa coisa horrível tinha lhe acontecido, disse que poderia ajudá-la, desde que trouxesse uma semente de mostarda de uma casa que não tivesse conhecido o sofrimento. A mulher foi de casa em casa procurando a tal semente e, apesar de muitos terem oferecido sementes, ela não encontrou nenhuma casa que não tivesse conhecido o sofrimento. Assim sendo, voltou ao Buda, que disse:
Minha irmã, você descobriu
Procurando aquilo que ninguém acha, o bálsamo amargo
Que eu tinha que lhe dar. Aquele que você amou
Caiu morto no seu peito ontem; hoje
Você sabe que o mundo inteiro chora
Com sua tristeza.

Buda desenvolveu muitos métodos táticos para levar as pessoas a abandonarem os apegos das suas mentes discriminadoras (que ele via como a fonte dos problemas). Explicou por que agia desta forma, através da parábola da casa em chamas:
Em uma cidade de um determinado país, havia um grande ancião, cuja casa era enorme, mas só tinha uma porta estreita. Esta casa estava muito estragada e um dia, de repente, irrompeu um grande incêndio que rapidamente começou a se alastrar. Dentro da casa estavam muitas crianças, e o ancião começou a implorar para que saíssem. Mas todas estavam absortas nas suas brincadeiras
e, embora tudo levasse a crer que iriam morrer queimadas, elas não prestaram a menor atenção ao que o ancião dizia e não mostravam pressa de sair.
O ancião pensou um momento. Como era muito forte, poderia colocar todas dentro de um caixote e tirá-las rapidamente. Mas, depois, viu que, se o fizesse, algumas poderiam cair e se queimar. Por isso, resolveu alertá-las sobre os horrores do incêndio, para que saíssem por sua livre e espontânea vontade.
Aos gritos, pediu que fugissem imediatamente, porém as crianças deram uma olhada e não tomaram conhecimento.
O grande ancião lembrou-se que todas as crianças queriam carroças de brinquedo e, assim, chamou-as dizendo que viessem depressa ver as carroças de bodes, veados e bois que tinham chegado.
Ao ouvirem isto, as crianças finalmente prestaram atenção e caíram umas sobre as outras, na ânsia de saírem, fugindo, desta maneira, da casa em chamas. O ancião ficou aliviado por terem escapado ilesas do perigo, e, quando elas começaram a perguntar pelas carroças, deu a cada uma não aquelas simples que elas queriam, porém carroças magnificamente decoradas com objetos preciosos, puxadas por grandes novilhos brancos.

O simbolismo desta estória talvez esteja bastante óbvio. O ancião é Buda, a casa em chamas é a natureza da existência que Buda chamou de ‘Duka’ (isto é, incapaz de dar uma satisfação duradoura, porque, em todos os aspectos, é inconsistente e transitória). As crianças são a humanidade e suas brincadeiras representam as diversões mundanas com as quais estamos tão ocupados que, muito embora estejamos vagamente conscientes da vida e do verdadeiro Self, não prestamos atenção para isto. As carroças de bode, veado e boi são os métodos de ensino temporários, na realidade o ‘chamariz’ através do qual Buda pode nos fazer escutar e começar a praticar o Dharma, e as carroças magníficas, puxadas por grandes novilhos brancos, representam a própria Iluminação, para a qual Buda só nos conduzirá se tiver nossa cooperação e entrega.
O espírito da estória toda do Dharma de Buda talvez esteja resumido nesta estória. Ela foi adaptada e difundida por meio de todos os seus grandes sucessores do Dharma. Demonstra também a natureza provisional daquilo que Buda ensinou, associando seu ensinamento a um remo, que é útil enquanto a pessoa está atravessando a água, mas que poderá ser abandonado depois. E por isso que, na tradição Zen, o Dharma foi chamado de o dedo que aponta para a lua.
No Sutra Lankavatara, Buda é mencionado como tendo dito: ‘Se um homem se apega ao significado literal das palavras.., a respeito do estado original da iluminação, o qual é não nascido e que não morre..., começa a ter pontos de vista positivos ou negativos. Assim como as diferenças dos objetos são vistas como ilusão, e distinguidas como reais, se afirmações errôneas forem feitas, as distinções errôneas continuam. E por meio do ignorante que as distinções continuam, e o sábio faz o contrário.’ E, como vemos no Sutra Vajraechedika (do Diamante):
Assim você deve pensar deste mundo fugaz;
Uma estrela no amanhecer, uma espuma no regato;
Uma faísca de relâmpago, em uma nuvem de verão;
Uma lâmpada cintilando, um fantasma, e um sonho.

Muito embora o Dharma tenha sido formulado dentro das Quatro Nobres Verdades, do Caminho Óctuplo, das Cinco Virtudes Espirituais e dos Cinco Obstáculos à Prática, dos Doze Elos da Existência Condicionada e muito mais, todos estes constituem os diversos meios práticos para compreendermos a verdadeira natureza do coração e da mente humanos. Por isso, em outro lugar, os Sutras nos falam que, entre a Iluminação, em Magadha, e a morte ou paranirvana, em Kusinagara, Buda não proferiu nenhuma palavra de ensinamento; que não alcançou a Iluminação embaixo da árvore Bodi, em Magadha, e que eternamente esteve sentado sobre o ‘Pico dos Abutres’, pregando o Dharma para a assembléia (o Sangha).
Em Zen Flesh, Zen Bones, tradução para o inglês de Nyogen Senzaki e Paul Reeps, encontramos o seguinte:
Buda disse: Considero a condição dos reis e legisladores como grãos de poeira. Observo os tesouros de ouro e as pedras preciosas como sendo tijolos e seixos. Para mim, as mais finas vestes de seda são trapos esfarrapados. Vejo mundos de miríades, no universo, como pequenas sementes de fruta, e o maior lago da Índia como uma gota de óleo no meu pé. Percebo os ensinamentos do mundo como a ilusão dos mágicos. Distingo a mais alta concepção de libertação como um brocado dourado de um sonho, e vejo o caminho sagrado dos iluminados como flores que aparecem nos olhos de alguém. Encaro a meditação como o pilar de uma montanha, o Nirvana como um pesadelo no dia. Considero o julgamento do que é certo e errado como a dança sinuosa de um dragão, e o aparecer e desaparecer das crenças como nada mais do que vestígios das quatro estações.’

Na tradição Zen, diz-se que, durante todos os quarenta anos de ensinamento, Buda só teve um sucessor no Dharma, seu discípulo mais antigo, Mahakashyapa. É assim que D.T. Suzuki conta a estória do Dai-Kensho de Mahakashyapa:
Buda estava um dia no Monte dos Abutres, pregando para uma congregação de discípulos. Ele não recorreu a nenhuma longa alocução verbal para explicar o assunto que estava tratando. Simplesmente, levantou, perante a assembléia, um buquê de flores que um dos discípulos lhe havia oferecido. Nenhuma palavra saiu de sua boca. Ninguém entendeu o significado dessa atitude, a não ser o venerável Mahakashyapa, que serenamente sorriu para o mestre, como quem tinha compreendido muito bem o seu ensinamento silencioso.
Buda, vendo o que se passava, solenemente proclamou: ‘Tenho o mais precioso tesouro espiritual e, neste momento, estou transmitindo-o para vocês, Ó Mahakashyapa.’

De fato, Buda estava dizendo para Mahakashyapa ‘Esta flor é o verdadeiro caminho e eu a entrego para você.’ Mahakashyapa teve um insight imediato da experiência do aqui e agora com ‘apenas estas flores’, da mesma maneira que Sakyamuni experimentou ‘apenas a estrela matutina’. Os símbolos da Iluminação, o manto e a tigela, foram passados adiante e, nas palavras do Sutra do Lotus Branco, ‘Um Buda junto com outro Buda aprofundam a realidade da existência inteira!’
Mahakashyapa transmitiu o Dharma para Ananda, outro discípulo de Buda, da seguinte maneira: Ananda perguntou para Kashyapa: ‘O honrado pelo mundo lhe deu o manto dourado, você ganhou mais alguma coisa?’ (Em outras palavras, teria o Buda transmitido para Mahakashyapa algum ensinamento secreto?) ‘Ananda’, gritou Kashyapa. ‘Sim, Senhor’, respondeu Ananda. ‘Derrube o mastro da bandeira do portão’, disse Kashyapa. Debaixo do impacto de ouvir e responder, Ananda estava no momento completamente alerta. Não faltava mais nada para ele compreender.
Katsuki Selcida diz o seguinte sobre isto:
Quando vai haver a palestra de um mestre, a bandeira é hasteada no mastro do portão do templo. Mas, agora, o mastro tinha que ser derrubado. A palestra de Kashyapa acabou. A derrubada do mastro é a confirmação drástica da transmissão do Dharma para Ananda. Derrubar O mastro da bandeira tem outra implicação importante: é derrubar o seu próprio apego, derruba! o seu tesouro: Iluminação, Zen, seu mestre, Buda, tudo. Este ato de derrubar é usado como um Koan independente. O mestre perguntará: Como você derruba o mastro da bandeira?’
A partir de Shakyamuni, a essência da Iluminação de Buda foi transmitida, ao todo, através de 28 gerações de mestres Dhyana da Índia, até Bodhidharma, no sexto século da era cristã. Sidharta Gautama, na verdade, tomou-se um herói que conquistou o mundo, mas não exatamente da maneira que seu pai planejara. 


TRANSMISSÕES NA ÍNDIA2
01. Shakyamuni02. Mahakashyapa03. Ananda04. Shanavasa05. Upagupta
06. Dhritaka07. Michaka08. Vasumitra09. Buddhanandi10. Buddhamitra
11. Parshva12. Punyayasha13. Ashvagosha14. Kapimala15. Nagarjuna
16. Aryadeva17. Rahulata18. Sanghanandi19. Gayashata20. Kumarata
21. Jayata22. Vasubandhu23. Manorhita24. Haklenayasha25. Aryasimha
26. Bashashita27. Punyamitra28. Prajnatara29. Bodhidharma



  1. Extraído de "Elementos do Zen" de David Scott e Tony Doubleday
  2. Extraído de "Denkôroku" de Keizan Zenji
Fonte:http://www.nossacasa.net/shunya

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