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A FLAUTA ZEN


A FLAUTA ZEN


Suizen, é uma prática do Zen que visa atingir níveis mais elevados de consciência e é conhecido como a prática da respiração Zen, sendo utilizada a flauta Shakuhachi. A prática da respiração é muito comum muitas disciplinas orientais, assim com nas Artes Marciais, visando o equilibrio interior. Através dos estimulos das fibras parassimpáticas, predominantes no sistema respiratório, que induz um estado de calma interior.
Com a experiência, você começa a encadear notas no mesmo fôlego, cada vez mais centrado e tranquilo.Com o tempo, tomamos consciência da pausa; pouco a pouco notamos os efeitos que as várias notas sobre a nossa consciência e passamos a agir intuitivamente.
A partir desse ponto, não existe mais separação entre quem toca, flauta e som. O aparecimento desta prática tem uma história muito interessante, conforme o texto abaixo, de Anderson Rabello Pereira:
“A flauta Shakuhachi chega ao Japão, vinda da China, por volta do século VII. Quando a música Gagaku foi introduzida neste país. Após seu ingresso no Japão, o Shakuhachi Gagaku sai de moda na China e no século X só era tocado na ilhas japonesas. No século IX a música Chinesa tocada no Japão começa a sofrer alterações e o Shakuhachi Gagaku cai em desuso. O monge Ennin (794-864) o utilizava com o canto do Sutra Amida ou Amida Kyo.
Na Idade Média, o Shakuhachi era instrumento de acompanhamento de Soga (canção e dança de Sarugaku, precursor do teatro Noh). O sarcerdote Ikkyu (1394 a 1482), viveu no período do florescimento do Zen Budismo; era um monge Rinzai que tocava Shakuhachi e deu origem a ramificação Fuke (origem do Shakuhachi moderno).
No período Edo vários samurais tornam-se Ronins, por dissolução de feudos e desaparecimento de diversos Daimios. Como praticantes do Zen, vários ingressam na seita Fuke , unindo-se aos monges Komusos (sacerdotes do nada). Caracterizavam-se por usar os “Sangu” (três instrumentos): Kesa, dogi (quimono) preto; o Tengai,chapéu de palha em forma de cesto, simboliza desprendimento do mundo material; e o Shakuhachi Fuke, do qual detinham monopólio. Tinham os “San In” (três selos): o Honsaku- autorização Komuso; Ein- cartão de identificação e permissão de viagem. Os Ronins não podiam utilizar suas espadas, então, o instrumento musical sofreu modificações para ser convertido em arma de defesa, como um bastão pequeno e resistente. Esta reformulação estrutural aumentou o número de nós (Ichi (um) shaku hachi (oito) Sun isto é, 30,03cm mais oito vezes 3 cm aproximadamente 54,5 cm) e passou-se a utilizar a parte da raiz do bambu mais resistente, com uma acústica melhor; era ferramenta religiosa “Hoki”. Os Komusos praticavam o “Suizen”.
A fundação da Fuke consta no documento Keicho no Okitegaki, decreto do século XVII, onde constavam os direitos e deveres da seita, bem como privilégios especiais. Após os primeiros oitenta anos, as regras e disciplinas dentro dos templos Komusos foram decaindo. Em 1847 foram proibidos os privilégios especiais e em outubro de 1871 o governo Meiji aboliu a seita Fuke.
O Shakuhachi é confeccionado com bambu Madake e uma característica é ter sete nós bem definidos, sendo os três últimos (campana) formados pela raiz. Tem embocadura simples, apenas um corte com ângulo de trinta graus e cinco furos. Suas medidas, porem, seguem rigorosas. Possui sonoridade rica em harmônicos e efeitos sonoros, como o “Muraiki” e o “Meri Kari”; escala pentatônica (ré, fá, sol, lá, dó, ré, que correspondem a “ro, tsu, re, chi, ri).
No século XVIII foi atribuido a Kurosawa Kinko (1710 a 1771), um monge Fuke, o ensino do Shakuhachi nos templos em Edo. Nascido em Furoda, ilhas Kyushu, de família samurai, Kurosawa viajou por todo o Japão recolhendo e organizando as peças Fuke, conferindo maior elegância e musicalidade. Seu estilo foi transmitido através de gerações da sua família. Após isto, o samurai Hisamatsu Fuyo, discípulo de Kinko III, tornou-se então o iemoto da linhagem, dando continuidade ao estilo. Hisamatsu manteve os aspectos da disciplina Zen intrínseca à tradição, mas, salientou sua importância como instrumento musical (gakki), dando um direcionamento artístico à flauta. Yoshida Itcho e Araki Kodo lideraram a transmissão do estilo após a morte de Hisamatsu.
A escola “Kinko Ryu” só ocorre a partir de Kinko II, com a necessidade de usar este termo para diferenciar do “Ikkan Ryu” (criado por Miyaji Ikkan, um dos melhores discípulos de Kinko). A linhagem Kinko está presente em diversos países, inclusive no Brasil.”

Artigo escrito por Anderson Rabello Pereira, pesquisador de Tradições e Artes Marciais japonesas; especialista em confeccionar Shakuhachi.


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