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SUNNIA, O VAZIO SAGRADO DO BUDISMO


SUNNIA, O VAZIO SAGRADO DO BUDISMO




Desde que os ocidentais tomaram conhecimento dos fundamentos do Budismo, causou enorme estranheza a idéia do Vazio como forma suprema de felicidade e libertação, um conceito tão diferente das imagens idealizadas de felicidade terrestre ou do paraíso alimentados pela teologia ocidental, estes últimos baseados em cenários oníricos de campos verdejantes e floridos e cidades com telhados de ouro e ruas pavimentadas com rubis e esmeraldas.
Afinal quem quer a felicidade em um vazio, ou receber o vazio como forma suprema de felicidade?
O Budismo sempre desconfiou do êxtase cristão ou das arrebatadoras e intensas alegrias do paraíso. A felicidade estampada na face de um Buda em meditação é de uma calma profunda e estável e de uma suave sensação de abstração e benevolência. Aos budistas sempre pareceu que os arrebatadores êxtases cristãos têm um fundo emocional próximo de uma embriaguez.
Por outro lado, a serena sensação de ananda (beatitude) dos budistas sempre pareceu fria, sem graça e pouco atrativa, sob a perspectiva dos cristãos.
Culturas diferentes trazem visões diferentes e atitudes diferentes.
Para os budistas a felicidade está na cessação do sofrimento. Ao se eliminarem as causa do sofrimento, surge uma felicidade inerente que já existe no fundo da natureza humana.
Para os cristãos, a felicidade é uma conquista ou um prêmio pela redenção, portanto, têm de se revestir de todas as prerrogativas de satisfação e prazeres espirituais que compensem os prazeres sensuais e materiais abandonados em prol da busca pela salvação.
O que geralmente passa despercebido na análise das motivações do budismo é que este é um movimento reformador do hinduísmo.
Como o hinduísmo passava por uma crise de confusão e descoordenação decorrente do excesso de divindades e do excesso de filosofias, o Budismo teve de assumir uma forma negativa de afirmar a divindade, para contrabalançar e depurar o hinduísmo excessivamente animista e intelectualizado.
Por esse motivo, Buda resolveu adotar a estratégia do não-eu, do não-ser e do Não-Deus.
O Budismo adotou a via negativa, como um movimento de antítese à via afirmativa do Hinduísmo tradicional. Todo o hinduísmo era fundamentado no conceito de Atmã, afirmando a identidade essencial do Atmã e de Brahman.
O budismo é uma doutrina anatma ou anatta (Não-eu), negando a existência de qualquer entidade permanente e ensinando que a realidade é vazia e que a única coisa existente na natureza humana são os “agregados” (Skhandas) que se transmitem de uma encarnação para outra.
Atualmente, torna-se mais claro que este foi um artifício usado por Buda para evitar a fixação conceitual que impede a experiência direta.
Obviamente os agregados teriam de se agregar em torno de alguma coisa, visto que não poderiam ficar flutuando soltos no espaço sideral. Caso os agregados não se agregassem em torno de algo (um elemento agregador), fatalmente se desagregariam e não seriam agregados e sim desagregados.
E que elemento agregador poderia ser esse senão o atmã (o eu interior) ?
De certa forma, a Vedanda, a mais elevada e sutil forma de elaboração filosófica do hinduísmo, também ensina a mesma coisa, porém através da via afirmativa, quando afirma que “Sarvam tat kaluvidam Brahman” (Em verdade, tudo isso é Brahman). Se tudo é Brahman, então o Eu não existe, visto que é uma manifestação ou uma projeção da Consciência suprema.
Se a mesma mensagem pode ser expressa pela via afirmativa e pela via negativa, qual seria a vantagem do cânone budista de ensinar através da via negativa?
A grande vantagem da via negativa é não evitar a arrogância tão comum nos sacerdotes, e particularmente nos brâmanes, que ficam plenos de si com o próprio saber, além da fixação conceitual do saber teórico impedir a experiência direta.
É preciso muito cuidado ao se introduzir um ensinamento pela via negativa, visto que pode causar niilismo, desesperança e desinteresse, especialmente nas almas ainda imaturas e ávidas de experiências e sensações.
O fato é que o Budismo, na forma original, é a religião mais madura da humanidade. É destinada às almas antigas e já cansadas de girar na roda do Samsara.
Buda ensinava que nada poderia ser dito sobre a felicidade que existe fora do tempo. Isso apenas poderia ser experimentado, e qualquer fixação conceitual ou preconceito impediria essa experimentação direta.
Por isso, a preocupação básica do Budismo era criar uma vivência ética, através dos preceitos e eliminar todas as fixações conceituais. Por isso, fez a opção pela via negativa.

A mais sutil e genial elaboração do Budismo foi a noção de Sunnia, o vazio sagrado, uma forma original e sui generis de apresentar o princípio supremo do universo de uma forma negativa , evitando condicionar a mente dos devotos com estereótipos e falsos conceitos sobre aquilo que não pode ser nominado nem conceituado.

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