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BONDADE ORIGINAL, E NÃO PECADO ORIGINAL - MATTHIEU RICARD




BONDADE ORIGINAL, E NÃO PECADO ORIGINAL


Mathieu concluiu:

— Em um de seus artigos, Owen mencionou um filósofo segundo o qual durante toda a história da humanidade talvez não tenha existido ninguém que tenha sido verdadeiramente feliz e bom. O budismo oferece outra perspectiva. A palavra tibetana que designa o estado búdico tem duas sílabas: sang, que se refere a quem conseguiu desenvolver todas as excelências possíveis, como a luz que substitui as travas. Esse estado búdico é a bondade suprema, a verdadeira realização da bondade no núcleo fundamental da consciência. Já que o potencial para a realização do estado búdico está presente em todos os seres sencientes, o método budista está, portanto, mais próximo da idéia de bondade original do que de idéia de pecado original. Essa bondade primordial, a natureza búdica, é a natureza suprema da mente. Diz-se que estado de percepção está destituído de emoções negativas e, consequentemente, de sofrimento. Essa percepção é impossível? Em resposta a isso, é preciso confiar nos testemunhos do Buda e de outros seres iluminados. Conforme eu disse antes, a possibilidade de iluminação se fundamenta na idéia de que as emoções obscurecedoras não são inerentes à natureza fundamental da mente. Embora seja possível deixar uma barra de ouro enterrada na lama durante séculos, ela jamais muda em si. Só é preciso retirar camadas que cobrem o ouro para revela-lo como é e sempre foi. Alcançar o estado búdico é, portanto, um processo de purificação, da acumulação gradual de qualidades positivas e sabedoria. Por fim, chega-se a estado de consciência total no qual as emoções destrutivas e obscurecedora não têm mais motivo para surgir. Pode-se perguntar como um ser iluminado consegue viver sem emoções. Parece que é pergunta errada, já que as emoções destrutivas são o que impede que se vejam as coisas como são e, portanto, de viver apropriadamente. As emoções obscurecedoras interferem na averiguação correta da natureza da realidade e da natureza da mente. Quando se vêem as coisas como são, fica mais fácil livra-se das emoções negativas e gerar emoções positivas, que se fundamentam na razão sadia— inclusive uma compaixão muito mais espontânea e natural. Tudo precisa fundamentar-se na experiência direta. Caso contrário, seria como construir um belo castelo na superfície congelada de um lago; está fadado a afundar quando o gelo se derreter. Conforme disse o Buda: “Eu vos mostrei o caminho. Cabe a vós percorrê-lo.” Não é nada que se consiga com facilidade. A experiência requer perseverança, diligência e esforço constante. Conforme disse o grande eremita tibetano Milarepa: “No inicio, nada vem; no meio, nada fica; no fim, nada vai.” Portanto, demora. Mas o incentivo é que, quando se progride até o máximo da capacidade, é possível verificar que funciona.

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